domingo, 9 de dezembro de 2007

poeminha



Achei esse poeminha hoje, dentro de um livro empoeirado...
Fiz quando estava na 6ª... 7ª série, eu acho. Bem velho e com alguns erros históricos hehe
Não posso deixar de compartilhar uma obra tão magnífica com os frequentadores do blog :D
Lá vai:

Sem título (não tem título mesmo não :P )
Depois que a escravidão acabou
A bagunça começou

Gente de todo lugar

Tava vindo pra cá

D. João incentivou

e todo mundo achou bão
Alemanha, Portugal, Espanha

e até gente do Japão

Terra pra plantar café

no Nordeste não tem não

e o jeito agora é

dar o pé do sertão

Muito gringo apareceu

e foi acabando a alegria
O Brasil já tava cheio

e o governo com receio
Os estrangeiros eram bravos

e não deixavam barato

Se tivesse algo errado

iam logo ao sindicato

Se é pra produzir
sem nada pra pagar
o melhor é enganar

o povo que vem pra cá.

É, eu também não entendi o que eu quis dizer com isso.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Tradição, racismo, família, eugenia e propriedade

Nesta semana li uma reportagem na revista de cultura popular do Fabiano, meu amigo. Lá pro meio, a reportagem trazia uma fala de Roosevelt sobre a questão racial no Brasil. O então presidente norte-americano lembrava o projeto de branqueamento da população brasileira, planejado com a imigração européia, com vistas à "higienizar" o país, deixar todo mundo branquinho, branquinho. Onde trabalho existe o Núcleo de Promoção da Igualdade Racial, um dos braços da extensão. Destaquei a fala de Roosevelt para mostrar à coordenadora do Núcleo, muito entendida do assunto - óbvio. Ela acrescentou que o projeto teria um "fim" em 2011 (pelo que me lembro da conversa), quando todas as brasileiras e todos os brasileiros chegariam ao ápice racial, com suas peles brancas e olhos azuis. "Ainda está em tempo", brincou minha colega de trabalho.
No mesmo dia, recebo um e-mail intitulado "Fascismo na Livraria Cultura". Coincidência ou falha minha na observação do mundo, o texto mostra como a eugenia ainda tem esquizo-seguidores. Sem mais delongas, aí vai o texto na íntegra, redigido por mulheres que na livraria estavam:

Caros(as) amigos(as),

Ontem, dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, fomos à Livraria Cultura de Brasília e presenciamos uma cena, senão absurda, criminosa - o lançamento de um livro intitulado "A revolução quilombola", do jornalista (?) Nelson Ramos Barreto, que consiste em desqualificar o pleito das comunidades quilombolas pela formalização da posse de seus territórios tradicionais, com foco na crítica ao processo de regularização fundiária destes grupos efetuada pelo INCRA por meio deste Governo.

Fosse somente a divergência de posições a respeito da questão quilombola, não nos admiraria. O mais chocante foi ver homens de terno preto (fenótipo - brancos), com broches da TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), ao redor do "Príncipe Imperial" Dom Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel, discursando em prol dos "valores ocidentais" e do "direito de propriedade", contra uma "reforma agrária negra".

Afirmando sempre que nunca houve "problema racial" no Brasil, o discurso de tais senhores pregava que a mestiçagem deveria ser incentivada e que, assim como o comunismo, a reforma agrária quilombola poderia matar milhões de pessoas. Nem é preciso dizer que a base para esse discurso ainda é o mito freyriano da mistura das três raças.

Esqueceu, talvez, de que os negros após a "abolição" foram deixados à própria sorte, sem terras ou trabalho – quando se iniciou o processo de incentivo à imigração européia para uma formação mais civilizada da sociedade nacional (ideologia perene do branqueamento biológico e ideológico). Na contracapa do livro, podemos ter um aperitivo "A bondosa Princesa Isabel substituída por Zumbi, um escravocrata" (!).

Um dos detalhes perversos do evento era a presença de um único negro que ficava parado como que exposto em um zoológico segurando o livro do jornalista. Tivemos certeza de que se tratava de um show de horror quando um dos jovens da TFP, também com seu terno e brochinho, nos disse "escutem o negro falar!". Ao que foi constestado, retrucou "façam um teste de DNA com os presentes nesta sala e vejam se existe raça!".
O referido negro disse ter sido discriminado em suas andanças pelo Congresso Nacional por uma princesa da Etiópia.... Ele foi convidado a falar no evento, prestando uma homenagem ao autor do livro. No entanto, anteriormente aos discursos, circulava sozinho pela biblioteca. Em sua primeira fala, chegou a dizer que os quilombos sempre foram uma "farsa", pois os negros eram "obrigados" a fugir, contrariando seu desejo de permanecer nas casas grandes, junto aos seus senhores. Chocante a forma como o discurso estava descolado da imagem do sujeito. Muito triste ver em operação uma manobra comum a esses movimentos, a cooptação de um sujeito, com vistas à legitimação de um discurso contra ele mesmo. Imaginem a violação psíquica que sofre esse sujeito se prestando a esse papel.

Por fim, os homens nos cercavam dizendo coisas do tipo "por que vocês não vão para Cuba?", ou "essas meninas são agentes provocadores enviados por alguém". Aliás, éramos as únicas mulheres do local, exceto por uma portuguesa bem jovem, provavelmente esposa de um dos nobres (?) senhores, e as funcionárias da loja, alienadas ao que se passava. A funcionária responsável pelos lançamentos de livros até tentou se desculpar, mas também tentou se desculpar com a categoria de clientes aos quais nos opomos. Não fosse nossa presença no lançamento, seria uma turma de fascistas juntos, comemorando mais uma grande obra de Nelson Barreto, que já escreveu contra a reforma agrária - detalhe: o princípe desafiava qualquer "sociólogo ou economista" a citar um exemplo de reforma agrária no mundo que tenha dado certo - e a favor do trabalho escravo (!)

Registramos nossa reclamação na Livraria Cultura, da qual somos clientes. Nos surpreende, ainda, que uma livraria com este perfil tenha aberto espaço para um evento de caráter racista. Algum intelectual sério foi convidado para este evento? Por que o lançamento deste livro foi agendado para o dia nacional da consciência negra? No mínimo, a assessoria de imprensa da Cultura ou é muito ruim e desinformada, ou também é racista.

É impressionante como este caso vem comprovar que existem pessoas "saindo do armário" para demonstrar seus preconceitos, seus valores fundados na exploração e violência (a exemplo das reações positivas ao BOPE da "ficção", e negativas às cotas nas Universidades; dos comentários sobre a fala do Governador do Rio de Janeiro sobre a necessidade de legalização do aborto por causa dos filhos das favelas, "naturalmente" marginais etc.). Outra coisa que isso nos mostrou: a briga é feia. De maneira mais ou menos escarandada, os grupos dominantes do nosso país estão mesmo saindo em defesa de seus interesses historicamente assegurados desde a constituição do Brasil e agora, de maneira ainda muito tímida, ligeiramente ameaçados pela possibilidade de divisão de bens/saberes/posições.

Os jornalistas nos desculpem, mas aqueles de sua categoria que têm tido maior destaque são os que corroboram com este movimento microssocial perigoso, ao que Deleuze e Guattari chamaram de "micropolítica e segmentaridade", ao analisar as motivações do sucesso do nazismo na Alemanha - seu triunfo só teria sido possível porque houve um trabalho anterior de disseminação de suas idéias entre os segmentos mais diversos da sociedade alemã. Nossos hitleres nacionais estão se infiltrando, agora ocupando as livrarias "cool" que frequentamos…

Carmela Zigoni, Paula Balduino, Priscila Calaf, Júlia Otero.
Na frígida tentativa de desconstruir o discurso racista, sem mais...

domingo, 18 de novembro de 2007

Tempestade e ímpeto!

Aos Leitores Amigos

Poetas não podem calar-se,
Querem às turbas mostrar-se.
Há de haver louvores, censuras!
Quem vai confessar-se em prosa?
Mas abrimo-nos sob rosa
No calmo bosque das musas.
Quanto errei, quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só flores num ramo — aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa canção.

Johann Wolfgang von Goethe


O Romantismo Alemão surge praticamente no final do século XVIII, como uma forma de reação à ostensiva campanha do Iluminismo a favor da razão. O movimento vem elogiar a capacidade do homem de sentir, de se emocionar, desvalorizando a idéia do homem-máquina, realizador de cálculos, prisioneiro da lógica.
O respeito do homem às suas próprias emoções proporcionaria ao ser a verdadeira capacidade de apreender conhecimentos, deixando de lado o uso unicamente da razão, que servia como uma ferramente cientificista, limitadora desse aprendizado.
Uma das características do Romantismo Alemão foi a presença do Sturm und drang, ou Tempestade e ímpeto, ilustrando essa atitude de valorização dos sentimentos e da natureza. O sturm und drang é uma ode à paixão, à vivência. Os sentimentos estão livres, aflorando em sua essência primitiva. Essa valorização da vida, segundo os românticos em questão, proporcionaria o desenvolvimento pleno do indivíduo, diferentemente do Iluminismo, então corrente dominante.
Na arte, o clima sturm und drang também produziu efeitos, deixando o artista mais livre para compôr suas obras, sem ter em mente a preocupação em seguir regras pré-estabelecidas. Essa liberdade impressa na arte a torna vibrante, apaixonada. No campo da literatura, o nome de Goethe é um ícone dessa tempestade, desse ímpeto.
Goethe escreveu vários dramas, nos quais Werther teve grande repercussão. Com um histórico pessoal de vários amores fracassados, Johann Wofgang von Goethe possuía uma vasta experiência emocional para escrever suas histórias de forma apaixonada, doando-se em cada e para cada personagem. A experiência e a liberdade imprimem legitimidade à obra, aproximando-se do leitor à medida que este se identifica com a história...

Falando nisso, alguém tem o Werther pra me emprestar?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Wandafuru Raifu



Sábado, para mim, é um dia para ficar em casa. Não que eu não goste de sair, mas devido ao fato de passar a semana inteira longe, é um momento esperado pra descansar e matar a saudade dos véio. Para completar, sábado passado acordei meio doente, com a garganta inflamada. Juntando a fome com a vontade de comer, passei o dia de molho. Sem dinheiro pra alugar um filme e sem vontade de ficar sentada no computador, grudei na televisão. Como na minha casa tem parabólica, dá pra escolher alguns programas melhores. No canal da Radiobrás, assisti aos programas Mundo da Literatura e Mundo da Fotografia, ambos muito bons. No primeiro rolou uma entrevista com o escritor Alexei Bueno e com o finado Bruno Tolentino. Depois troquei para o canal Futura. A sua programação do sábado é muito boa. Não vou citar todos que assisti, mas destaco o Umas Palavras, programa de entrevista com escritores que nesta edição entrevistou o Mario Vargas Llosa - descobri-o muito simpático e crítico de Hugo Chavez.


Mas a razão de ser deste post é o filme Depois da Vida, de Hirokazu Kore-eda. Com o título original Wandafuru Rifu (sim, sim, Wonderful Life), o filme se passa num lugar - que não nesta Terra de meu deus - para onde os mortos vão quando morrem. Neste local, os recém-falecidos precisam escolher o melhor momento de suas vidas para que seja recriado, se tornando a única lembrança que levará para sempre. Nessa espécie de "escritório" pós-morte, existem os guias, que também estão mortos - mas secretamente trabalham ali porque nao conseguiram escolher sua memória - os quais explicam que o prazo para a escolha da memória é de três dias. Várias histórias são relembradas e algumas pessoas não têm histórias para relembrar... o drama de olhar para trás e descobrir que a vida não proporcionou nada. O filme é muito bonito, simples e, particularmente, me fez refletir bastante.


Qual memória você escolheria para levar para sempre?

domingo, 28 de outubro de 2007

Ausência


Não conheço ninguém que não tenha medo da morte. Seja da própria morte ou da morte do outro. De todos os sentimentos que tive até hoje, o mais doloroso foi o da perda de alguém.

Hoje, dia 28 de outubro de 2007, faz um ano que meu irmão morreu. Até o dia de sua morte, eu desconhecia o valor da presença das pessoas. Até então, tudo estava ali - dado, consolidado, "permanente". Estava tão "permanente" que eu demorei quase o dia todo para digerir a notícia. Meus pais choravam, todo mundo ligando na minha casa e eu, inerte. Como assim 'morreu'? Que brincadeira é essa? Então, quando a idéia do "nunca mais" começa a surgir na mente é que o banzo baixa com todas as forças no corpo. "Nunca mais ele vai almoçar comigo"."Nunca mais vamos brigar". "Nunca mais vou ouvir sua voz". "Nunca mais vamos rir juntos".
A partir disto é que os olhos começam a marejar, a garganta fica apertada e o peito parece um buraco, um abismo. Acabou. Perdeu. Fim.

Se não há mais nada a fazer, resta chorar, ouvir as palavras de conforto e abraçar os amigos. Mas muito além disso, resta dar mais atenção à quem ficou. E é então que você percebe o quanto foi desleixado e ausente com os outros. É então que o medo de perder mais alguém fica latente. A efemeridade faz com que tudo fique mais valioso e faz cada momento, único.


E assim a morte valoriza a vida.

sábado, 20 de outubro de 2007

O ônibus 174


O caso do Ônibus 174 refere-se à tentativa de assalto que culminou no sequestro de um ônibus que fazia a linha Central - Gávea, em junho de 2000, no Rio de Janeiro. Até então, mais um fato violento, fruto de uma estrutura sócio-econômica que desestabiliza a vida de muitos brasileiros. Esse acontecimento possuía características que o tornou noticiável. Mas será que naquela tarde de 12 de junho não estavam acontecendo outros fatos importantes no país? O processo de seleção de notícias leva em conta alguns critérios para noticiar um fato em detrimento dos outros: o acontecimento mais recente, com maior amplitude, conformidade com os preconceitos existentes.

O recorte que a televisão ofereceu àqueles telespectadores que acompanharam o episódio ao vivo foi o da visão dos policiais: o "sequestrador", Sandro Barbosa do Nascimento, dentro do ônibus com suas vítimas. Justamente o viés que leva em consideração o valor/notícia que potencializa os valores e preconceitos que regem a sociedade brasileira - o jovem negro, munido de uma arma, colocando em risco a vida de suas "vítimas". Quem será que foi a vítima maior? Geísa Firmo Gonçalves, a moça morta pelo policial no desfecho do sequestro? Ou o indivíduo que foi menino de rua que presenciou a Chacina da Candelária, Sandro Barbosa do Nascimento? Obviamente, não se pode comparar perdas. O que se questiona aqui é o papel da mídia, com seu poder de agendar a sociedade, agindo de forma a definir como as pessoas da sociedade vão tratar os assuntos em suas conversas. Será que o conceito de "imparcialidade" não leva em seu bojo a análise de todos os pontos envolvidos no acontecimento coberto pela mídia?


Pode-se dizer que a construção da notícia do sequestro falhou em vários pontos. Não foi mostrado o ângulo de visão do sequestrador, o que daria uma maior amplitude ao recorte dado pela mídia, nem o despreparo da polícia, duvidosa de como deveria agir e quais ordens deveria acatar. A indiferença em relação ao "algoz", permeada pela idéia de ele deveria ser punido, foi presente durante toda a cobertura. A maneira maniqueísta, que atribui todas as características negativas unicamente ao sequestrador, é mais uma dessas falhas.

O telespectador está posicionado no lado do bem, atrás do "espelho da realidade", do lado da polícia, da sociedade, da família das reféns. Posiciona-se as câmeras buscando-se os melhores ângulos do show de terror, uma vez que não se tem um texto pronto para imprimir ao fato uma dramaticidade maior. A carga emocional transmitida pelas imagens não precisa de um texto elaborado: as palavras "bandido", "refém" e "pânico" já fazem esse trabalho.


Sandro, o "bandido", "sequestrador", paradoxalmente, continua invisível, forma como passou toda a sua infância como menino de rua. Os valores socioculturais levados em consideração ao selecionar a notícia do sequestro como pauta do dia, são reforçados pela cobertura, que indica que o bandido deve ser punido, deve morrer. E o show de terror termina assim: a vítima construída pela mídia, Geisa, é acidentalmente morta pelo policial e o bandido é heroicamente capturado pelos policiais, morrendo (assassinado?) logo depois, asfixiado.