"Eu lamento ver isso na nossa Justiça. O Código Penal é um só, mas a Justiça tem dado decisões mais brandas para os réus com mais recursos e decisões mais severas para os com menos recursos", foi a frase do advogado de defesa de Iolanda Figueiral, em novembro de 2005, época em que ele, juntamente com a Pastoral Carcerária, tentavam tirá-la da cadeia.
Hoje, falecida, vítima de um câncer, Iolanda corroborou a frase de seu advogado e exemplificou mais uma vez para a sociedade brasileira o quão falha é a Justiça vigente em nosso país. A velha história "absolve o juiz ladrão e condena a 100 anos o homem que roubou um pão." A ex-bóia-fria e ex-catadora de papel Iolanda, foi presa aos 79 anos sob a acusação de tráfico de drogas, quando policiais encontraram 19 pedras de crack em sua casa. Não tinha antecedentes criminais. Sobrevivia com 300 reais que recebia da aposentadoria. 4 filhos, 15 netos, 15 bisnetos. Ela se defendeu e foi defendida, mas nem o fato de ser uma vitima terminal de um câncer no ovário e no intestino mobilizou as autoridades, que relutaram para aceitar os pedidos de liberdade provisória e habeas corpus. Após muitas campanhas de entidades de direitos humanos é que Iolanda, pesando menos de 40 quilos, teve concedida a liberdade provisória, morrendo no começo deste mês, após dez meses de luta contra o câncer em "liberdade".
Enquanto pessoas como o empresário e político Paulo Maluf, que a qualquer pontada no coração já recebem um tratamento especial, saindo da cadeia diretamente para o hospital, pessoas como Iolanda Figueiral, desprovidas de qualquer influência, analfabetas, que sobrevivem com as migalhas que a sociedade dispensa, agonizam na prisão, contando somente com a sensibilidade de pessoas e organizações que lutam para assegurar os direitos humanos.
Engraçado como as notícias possuem um valor tão efêmero, mas suas causas continuam aí. As últimas são as do momento exato, esquecidas no dia seguinte, impressas em um jornal que agora serve para aparar o xixi do cachorro no quintal. Em contrapartida, os fatos se repetem, a estrutura se mantém e a roda continua girando. A simples mudança de data de uma notícia de jornal a faz atual diante desse contexto. É o que eu senti ao reler esse texto que escrevi em novembro de 2006. Publiquei uma vez em um blog antigo, mas faz total sentido republicá-la (reles publica?).
Ou seria absurdo abrir o jornal amanhã e ler um artigo como esse?



