domingo, 28 de outubro de 2007

Ausência


Não conheço ninguém que não tenha medo da morte. Seja da própria morte ou da morte do outro. De todos os sentimentos que tive até hoje, o mais doloroso foi o da perda de alguém.

Hoje, dia 28 de outubro de 2007, faz um ano que meu irmão morreu. Até o dia de sua morte, eu desconhecia o valor da presença das pessoas. Até então, tudo estava ali - dado, consolidado, "permanente". Estava tão "permanente" que eu demorei quase o dia todo para digerir a notícia. Meus pais choravam, todo mundo ligando na minha casa e eu, inerte. Como assim 'morreu'? Que brincadeira é essa? Então, quando a idéia do "nunca mais" começa a surgir na mente é que o banzo baixa com todas as forças no corpo. "Nunca mais ele vai almoçar comigo"."Nunca mais vamos brigar". "Nunca mais vou ouvir sua voz". "Nunca mais vamos rir juntos".
A partir disto é que os olhos começam a marejar, a garganta fica apertada e o peito parece um buraco, um abismo. Acabou. Perdeu. Fim.

Se não há mais nada a fazer, resta chorar, ouvir as palavras de conforto e abraçar os amigos. Mas muito além disso, resta dar mais atenção à quem ficou. E é então que você percebe o quanto foi desleixado e ausente com os outros. É então que o medo de perder mais alguém fica latente. A efemeridade faz com que tudo fique mais valioso e faz cada momento, único.


E assim a morte valoriza a vida.

sábado, 20 de outubro de 2007

O ônibus 174


O caso do Ônibus 174 refere-se à tentativa de assalto que culminou no sequestro de um ônibus que fazia a linha Central - Gávea, em junho de 2000, no Rio de Janeiro. Até então, mais um fato violento, fruto de uma estrutura sócio-econômica que desestabiliza a vida de muitos brasileiros. Esse acontecimento possuía características que o tornou noticiável. Mas será que naquela tarde de 12 de junho não estavam acontecendo outros fatos importantes no país? O processo de seleção de notícias leva em conta alguns critérios para noticiar um fato em detrimento dos outros: o acontecimento mais recente, com maior amplitude, conformidade com os preconceitos existentes.

O recorte que a televisão ofereceu àqueles telespectadores que acompanharam o episódio ao vivo foi o da visão dos policiais: o "sequestrador", Sandro Barbosa do Nascimento, dentro do ônibus com suas vítimas. Justamente o viés que leva em consideração o valor/notícia que potencializa os valores e preconceitos que regem a sociedade brasileira - o jovem negro, munido de uma arma, colocando em risco a vida de suas "vítimas". Quem será que foi a vítima maior? Geísa Firmo Gonçalves, a moça morta pelo policial no desfecho do sequestro? Ou o indivíduo que foi menino de rua que presenciou a Chacina da Candelária, Sandro Barbosa do Nascimento? Obviamente, não se pode comparar perdas. O que se questiona aqui é o papel da mídia, com seu poder de agendar a sociedade, agindo de forma a definir como as pessoas da sociedade vão tratar os assuntos em suas conversas. Será que o conceito de "imparcialidade" não leva em seu bojo a análise de todos os pontos envolvidos no acontecimento coberto pela mídia?


Pode-se dizer que a construção da notícia do sequestro falhou em vários pontos. Não foi mostrado o ângulo de visão do sequestrador, o que daria uma maior amplitude ao recorte dado pela mídia, nem o despreparo da polícia, duvidosa de como deveria agir e quais ordens deveria acatar. A indiferença em relação ao "algoz", permeada pela idéia de ele deveria ser punido, foi presente durante toda a cobertura. A maneira maniqueísta, que atribui todas as características negativas unicamente ao sequestrador, é mais uma dessas falhas.

O telespectador está posicionado no lado do bem, atrás do "espelho da realidade", do lado da polícia, da sociedade, da família das reféns. Posiciona-se as câmeras buscando-se os melhores ângulos do show de terror, uma vez que não se tem um texto pronto para imprimir ao fato uma dramaticidade maior. A carga emocional transmitida pelas imagens não precisa de um texto elaborado: as palavras "bandido", "refém" e "pânico" já fazem esse trabalho.


Sandro, o "bandido", "sequestrador", paradoxalmente, continua invisível, forma como passou toda a sua infância como menino de rua. Os valores socioculturais levados em consideração ao selecionar a notícia do sequestro como pauta do dia, são reforçados pela cobertura, que indica que o bandido deve ser punido, deve morrer. E o show de terror termina assim: a vítima construída pela mídia, Geisa, é acidentalmente morta pelo policial e o bandido é heroicamente capturado pelos policiais, morrendo (assassinado?) logo depois, asfixiado.