domingo, 28 de outubro de 2007

Ausência


Não conheço ninguém que não tenha medo da morte. Seja da própria morte ou da morte do outro. De todos os sentimentos que tive até hoje, o mais doloroso foi o da perda de alguém.

Hoje, dia 28 de outubro de 2007, faz um ano que meu irmão morreu. Até o dia de sua morte, eu desconhecia o valor da presença das pessoas. Até então, tudo estava ali - dado, consolidado, "permanente". Estava tão "permanente" que eu demorei quase o dia todo para digerir a notícia. Meus pais choravam, todo mundo ligando na minha casa e eu, inerte. Como assim 'morreu'? Que brincadeira é essa? Então, quando a idéia do "nunca mais" começa a surgir na mente é que o banzo baixa com todas as forças no corpo. "Nunca mais ele vai almoçar comigo"."Nunca mais vamos brigar". "Nunca mais vou ouvir sua voz". "Nunca mais vamos rir juntos".
A partir disto é que os olhos começam a marejar, a garganta fica apertada e o peito parece um buraco, um abismo. Acabou. Perdeu. Fim.

Se não há mais nada a fazer, resta chorar, ouvir as palavras de conforto e abraçar os amigos. Mas muito além disso, resta dar mais atenção à quem ficou. E é então que você percebe o quanto foi desleixado e ausente com os outros. É então que o medo de perder mais alguém fica latente. A efemeridade faz com que tudo fique mais valioso e faz cada momento, único.


E assim a morte valoriza a vida.

5 comentários:

Edson Rocha disse...

muito bonito o que você escreveu. eu ainda nao tive uma experiencia dessas mas com certeza será mt barra pesada. não tem como fugir, faz parte da vida.

Anônimo disse...

vc descreveu com perfeição esse sentimento embaraçoso, embaralhado, a gente acha que nunca vai acontecer conosco e quando acontece achamos que nunca vai acabar... até que vc retira forças das pessoas que ficaram e tenta fazer tudo diferente pros que agoram precisam de um conforto... quando aconteceu comigo, achei que a morte seria a pior coisa do mundo, mas percebi que ver alguem morrer é pior ainda.

beijo Kami! conte sempre comigo, historias parelelas!

Gustavo disse...

Excelente texto.
Eu perdí alguém muito próximo esse ano também, eu estava no meio da aula (lá no iesb) quando recebí a notícia. Eu sei o que é isso.

Mas o valor às pessoas, isso eu aprendi a dar quando eu morava sozinho, não tinha com quem conversar, com quem sair. E percebí que eu não era autosuficiente, que eu precisava das outras pessoas. Infelizmente, mesmo depois de aprendido isso, às vezes a gente se esquece.

Moraes disse...

Sabe que eu nunca perdi ninguém próximo? Tenho medo.

R. Sant'Anna disse...

Já perdi alguns parentes, mas nunca um taõ próximo.
E como vc diz no início, todos temos medo, eu mesma, penso muito na morte e tenho muito medo, mas sei que é algo invitável, por isso prefiro nem pensar.

Gostei daqui.

Um abraço.